Recentemente, no podcast Fê Show, tive a oportunidade de aprofundar um debate que é um dos cernes da minha atuação como educador e psicanalista: a inclusão nas escolas. Como matemático e pedagogo, olho para os números e para a lei; mas como psicanalista, olho para o sujeito e para o seu estágio de sofrimento. O Artigo 205 da nossa Constituição é claro ao dizer que a educação é um direito de todos, mas precisamos questionar: como esse direito tem sido entregue na ponta?
O Olhar além do Diagnóstico
Minha trajetória pessoal, marcada por um AVCH aos 20 anos, ensinou-me que o diagnóstico não é um destino. A ciência fala em neuroplasticidade, eu falo em superação e propósito. Se hoje ocupo espaços de gestão e coordenação, é porque houve um processo de compensação que me permitiu focar no que eu podia desenvolver, em vez de lamentar o que havia perdido.
O sucesso da educação, em geral, é formação de um cidadão competente, e isto é impossível sem o desenvolvimento da autonomia. No processo de inclusão, em especial, não podemos aceitar um modelo que apenas deposita a criança na sala regular sem o devido processo de transição. Incluir é descobrir a janela que se abre quando uma porta se fecha.
A Rede Multidisciplinar e o Orçamento Público
Um ponto que sempre defendo em meus artigos é a necessidade de uma gestão inteligente. Não basta um agente/cuidador com curso de 80 horas ao lado do aluno; precisamos de uma rede que una Saúde e Educação. Quando o orçamento não contempla as terapias e o laudo demora a ser emitido na saúde, a escola recebe uma criança em crise, o que resulta em professores frustrados por não conseguir contribuir efetivamente com o desenvolvimento deste novo aluno.
Defendo a urgência das salas de descompressão. É necessário um ambiente de transição onde o profissional consiga olhar no olho do aluno e identificar o que o cenário de 35 alunos muitas vezes camufla. Inclusão sem estrutura é, na verdade, uma forma de exclusão qualificada.
O Resgate da Responsabilidade Familiar
Na psicanálise, trabalhamos o Triângulo de Édipo — o equilíbrio entre o afeto e a lei. Infelizmente, vivemos a era da educação terceirizada. Pais imersos no egocentrismo delegam às telas e à rua a formação de seus filhos.
Não sai fruto ruim de árvore boa. A criança é o reflexo histórico-social do seu lar. Se a cultura em casa é de violência ou omissão, a escola será o palco onde esse conflito irá estourar.
Uma Esperança que se Move
Minha missão, seja no PS News, na coordenação da Anhanguera ou no chão da escola, é a mesma: contribuir com o desenvolvimento do próximo, em especial por meio do conhecimento, afinal, acredito que o conhecimento transforma. A educação dinâmica exige o uso de ferramentas criativas — como o Graphogame, que já vi alfabetizar em meses o que anos de método tradicional não conseguiram.
Encerro reforçando que a política pública deve ser exercida com cidadania. Mães atípicas, busquem o Conselho Tutelar; exijam o cumprimento dos prazos; não aceitem a falta de assistência como normalidade. A mesma voz que Deus restaurou em mim após o coma, hoje uso para profetizar que, com gestão séria e princípios sólidos, podemos sim construir uma escola que não apenas receba, mas que verdadeiramente transforme vidas.
Samuel Reis é Jornalista, Pedagogo, Psicanalista e Coordenador Pedagógico da Anhanguera (Polo Jandira).
