Estava pronto para continuar escrevendo sobre a crise de identidade que assola a nossa sociedade, mas, além da inspiração divina, um acontecimento desta semana me conduziu por outro caminho. Curiosamente, esse novo caminho converge com o tema anterior, mas nos leva a uma reflexão que considero essencial para a formação do pensamento crítico de todo cristão.
Quem leu meu segundo livro, Inteligência Além do CHA: Equilibrando Corpo, Mente e Espírito, sabe que, entre as páginas 65 e 68, relato um dos períodos mais difíceis da minha vida. Ao final daquela história, porém, permanece um testemunho de restauração pela graça de Cristo Jesus.
O que não conto no livro é que, durante aquele período em que fui “esquecido” e “julgado” por muitos da comunidade religiosa da qual faço parte, eu exercia a função de Supervisor de Ensino no município de Jandira. Entre as escolas que acompanhava, estava a EMEB Moisés Cândido Vieira, sem dúvida uma das unidades mais desafiadoras do município.
Quantas vezes entrei naquela escola para mediar conflitos e transmitir segurança às pessoas, mesmo carregando dentro de mim amargura, insônia, falta de esperança e um vazio que parecia impossível de preencher.
Foi justamente nesse período que Deus colocou um personagem muito especial em minha caminhada, alguém que hoje tenho a alegria de apresentar.
Quase todas as vezes que eu saía daquela escola, um jovem permanecia sentado do outro lado da rua. Ele jamais esqueceu daquele que, anos antes, lhe entregava os versos bíblicos que seriam recitados nos cultos de domingo pela manhã. Mesmo me vendo barbudo, abatido e bastante diferente, bastava nossos olhares se cruzarem para ouvir a mesma saudação:
“A PAZ DE DEUS, IRMÃO SAMUEL!”
Ah… se ele soubesse o quanto aquelas palavras sustentavam alguém que, por dentro, estava em ruínas.
Depois de alguns dias repetindo esse ritual, passei a atravessar a rua durante o horário de almoço para conversar um pouco com ele. E, para minha surpresa, mesmo vivendo uma situação extremamente delicada — a medicina afirmava que sua obesidade já era considerada mórbida e que uma cirurgia oferecia risco elevado por causa do coração — Andrezinho sempre tinha um novo testemunho para compartilhar.
Curiosamente, era ele quem, aos olhos humanos, precisava ser consolado, mas era ele quem fortalecia o meu coração.
Cada testemunho me fazia recordar os tempos da juventude, das tocatas, das madrugadas de oração e daqueles domingos em que a busca pela presença do Espírito Santo era o centro da minha vida.
Ao final de cada conversa, ele sempre dizia:
“Congrega com nós no Europa… quando Deus preparar.”
Como descrevo em meu livro, chegou o dia em que Deus, por Sua infinita misericórdia, me encontrou novamente e restaurou em mim o desejo de louvar, orar e estar reunido com os irmãos.
No ano de 2025 deixei a Supervisão de Ensino para assumir um concurso no município vizinho, Itapevi. Certo dia, passando pela rua onde Andrezinho costumava ficar, resolvi parar o carro.
Novamente ouvi aquela saudação que tantas vezes havia renovado minhas forças:
“A PAZ DE DEUS, IRMÃO SAMUEL!”
Naquele dia, porém, percebi algo diferente. Ele também notou que meu semblante já não era o mesmo.
Perguntei como estava, e, para minha surpresa, encontrei alguém plenamente consciente da gravidade do seu estado de saúde.
Para muitos, aquele quadro seria motivo para desistir da vida. Mas a última conversa que tive com Andrezinho poderia ser resumida pelas palavras do apóstolo Paulo:
“Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro.”
Andrezinho amava viver. Tenho certeza de que lutou pela vida até onde pôde. Entretanto, chegou o dia em que descansou na esperança da vida eterna em Cristo.
Talvez seja justamente aqui que a crise de identidade da nossa geração mais se revele.
Perdemos a esperança da eternidade e passamos a viver como se tudo terminasse nesta vida. Quando isso acontece, a identidade do cristão deixa de estar firmada em Cristo e passa a depender exclusivamente dos resultados obtidos aqui na terra.
Na última conversa que tive com Andrezinho, enxerguei uma convicção que, infelizmente, hoje vejo cada vez menos presente entre aqueles que se dizem cristãos.
O propósito da nossa vida não está limitado ao tempo presente. Nossa esperança está na parúsia, na gloriosa volta de Cristo.
Precisamos voltar a anunciar aos corações aflitos aquilo que o próprio Senhor nos disse:
“NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, virei outra vez e vos levarei para mim mesmo, para que, onde eu estiver, estejais vós também.” (João 14:1-3 — ACF)
Era essa promessa que sustentava o sorriso do Andrezinho.
Era esse lugar que ele aguardava com esperança.
O apóstolo João descreve essa realidade da seguinte maneira:
“E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus. E Deus limpará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, porque já as primeiras coisas são passadas.” (Apocalipse 21:3-4 — ACF)
Vale a pena ler todo o capítulo 21 do Apocalipse para compreender um pouco mais da morada preparada desde a fundação do mundo para aqueles que permanecem fiéis.
Quando digo que essa esperança é o verdadeiro propósito do cristão, refiro-me ao fato de que, diante das injustiças desta vida, sabemos que haverá justiça perfeita nas mãos de Deus.
É justamente essa esperança que produz paz.
Caso contrário, alimentamos desejos de vingança que, tantas vezes, conduzem à loucura.
Quando saudamos nossos irmãos dizendo “A Paz de Deus”, estamos afirmando muito mais do que um simples cumprimento.
Estamos declarando que a nossa paz não depende dos resultados desta vida.
É evidente que não fomos chamados para a omissão. Todos os dias Deus nos concede oportunidades de praticarmos o bem, socorrermos os necessitados e plantarmos boas obras.
Em uma democracia, por exemplo, temos também a responsabilidade de escolher líderes honestos e comprometidos com a justiça, afinal:
“Quando os justos governam, o povo se alegra; mas, quando os perversos estão no poder, o povo geme.” (Provérbios 29:2)
Agora…
Tudo nesta terra é passageiro.
A esperança do cristão precisa ser a mesma que vi no olhar do Andrezinho pouco antes de sua partida.
Hoje escrevo para agradecer a Deus pelo privilégio de tê-lo conhecido. Talvez ele jamais tenha imaginado que, enquanto pensava estar apenas cumprimentando um irmão todos os dias, estava sustentando alguém que também precisava permanecer de pé.
Sua esperança não estava na cura do corpo, mas na promessa de Cristo.
Que Deus nos conceda essa mesma convicção.
