A Crise de Identidade: Quando Vivemos o Projeto de Alguém e Esquecemos Quem Somos

Assista a leitura com comentário do autor: https://www.youtube.com/live/hp415Zt3IpQ?si=UEBovocgB0JKRfDi

Quando digo que a família é o berço de tudo, não se trata apenas de uma frase de efeito. Isso ficará ainda mais evidente no tema que desejo tratar nesta semana, um tema que, para ser compreendido, exige que voltemos o nosso olhar para a primeira infância.

Quando nascemos, já somos resultado de estímulos recebidos ainda no ventre materno. Embora esse período seja essencial para o desenvolvimento humano, deixarei essa etapa para outra oportunidade. Quero começar pelos primeiros anos de vida, quando iniciamos a construção daquilo que chamamos de identidade.

Ainda muito pequenos, nossa tendência natural é repetir os comportamentos das pessoas que amamos. É justamente nesse período que nasce uma das maiores virtudes do ser humano: a curiosidade.

Mesmo antes de falar, já investigamos o mundo. Queremos tocar, experimentar, descobrir e, mais tarde, responder aos inúmeros “porquês” que surgem durante a infância.

É essa curiosidade, somada ao desejo de imitar aqueles que nos cercam, que nos leva a andar, repetir sons, pronunciar as primeiras palavras e conquistar tantos outros avanços fundamentais para a nossa jornada.

Quando a comunicação passa a acontecer por meio da fala, começamos também a supervalorizar aquilo que possuímos:

  • Meu brinquedo.
  • Meu pai.
  • Minha mãe.
  • Minha casa.

Nesse momento da vida, tudo o que é meu parece ser melhor. É a fase em que o egocentrismo exerce um papel importante no nosso desenvolvimento.

Não demora muito para surgirem as primeiras frustrações.

Descobrimos que existem brinquedos melhores que os nossos, mas pertencem ao nosso amigo. Então recorremos aos nossos grandes heróis — pai e mãe — para pedir algo igual.

Como nem todas as famílias possuem condições financeiras para atender a todos os desejos, surgem os primeiros “nãos”. E, por mais difíceis que sejam, esses “nãos” também são fundamentais para a construção da nossa identidade.

É justamente quando começamos a equilibrar a valorização do que temos com o desejo legítimo de conquistar algo melhor no futuro que damos um passo importante no desenvolvimento do nosso ser.

É nesse equilíbrio que começa a nascer aquilo que, como psicanalista, gosto de chamar de “meu verdadeiro eu”.

O natural seria que, ao chegar à adolescência e à vida adulta, conseguíssemos desenvolver esse equilíbrio. Afinal, maturidade é justamente a capacidade de conciliar desejos, frustrações, sonhos e realidade.

No entanto, a realidade mostra que isso nem sempre acontece.

Vejo muitos adultos que ainda permanecem em busca de uma identidade que nunca foi plenamente construída. Talvez esteja aí uma das maiores crises da nossa geração.

Quando construímos nossa identidade, passamos a desenvolver opiniões próprias.

É verdade que existe a frase: “Nada se cria, tudo se copia.” Mas também é verdade que tudo aquilo que recebemos pode ganhar novos significados a partir das nossas experiências, reflexões e da nossa capacidade de criar soluções para os problemas que encontramos ao longo da vida.

A curiosidade bem desenvolvida nos leva a questionar.

Já não perguntamos apenas “por quê?”, mas também:

  • Onde aconteceu?
  • Quando aconteceu?
  • Em que contexto aconteceu?

São perguntas como essas que nos permitem compreender os fatos, interpretar a realidade e construir convicções próprias.

O problema é que vivemos um período em que a construção da identidade parece estar cada vez mais rara.

Percebo que muitos ainda são extremamente suscetíveis às figuras influenciadoras. A entrega é tão grande que passam a desejar tudo aquilo que elas possuem, compram o que elas indicam e repetem seus comportamentos sem qualquer reflexão.

Estamos vivendo, ao meu ver, uma verdadeira crise de identidade.

Uma crise que produz idolatrias — entendidas aqui como crenças que deixam de passar pelo questionamento.

Nesse cenário, o diálogo torna-se cada vez mais raro.

As amizades entre pessoas diferentes são substituídas por interações entre iguais em ambientes digitais, onde o contraditório deixa de ser oportunidade de crescimento para se tornar motivo de conflito.

O mais preocupante é que essa crise tende a aumentar.

Ao invés de formarmos pessoas capazes de construir opiniões a partir das próprias vivências, estamos formando indivíduos que apenas reproduzem pensamentos prontos.

Quando penso em evolução ou em educação integral, penso justamente no contrário.

Penso em alguém cuja curiosidade o conduz ao desenvolvimento intelectual constante.

Penso em relações sociais que dão sentido aos conhecimentos adquiridos.

Penso em alguém que compreende que cuidar do corpo é também cuidar da mente.

Penso em uma inteligência emocional capaz de proteger o indivíduo das paixões cegas.

Tudo isso parece cada vez mais raro.

Se a sociedade buscasse mais o sentido das coisas, talvez não estivéssemos vivendo em um ambiente onde tantas pessoas apenas repetem comandos produzidos por terceiros.

Por vezes, quem constrói a própria identidade tem a sensação de não pertencer às tribos que hoje dominam boa parte das opiniões.

Isso acontece porque, para muitas dessas tribos, o questionamento não é bem-vindo.

Já para quem desenvolveu uma identidade sólida, questionar faz parte do próprio processo de compreender a realidade.

Em minhas aulas sobre identidade docente, costumo ser questionado sobre qual seria o melhor método para ensinar.

Minha resposta sempre é a mesma.

Identidade significa “eu”.

Por isso, embora o estudante tenha acesso aos mais diversos métodos de ensino, sua prática jamais deveria ser uma simples cópia da minha ou de qualquer outro professor.

O ideal é que ele construa sua forma de ensinar a partir da sua maneira de se comunicar, das suas experiências e da sua história.

Sua aula precisa ter a sua identidade.

Precisa ser única.

No entanto, o que mais encontramos atualmente são pessoas vendendo fórmulas prontas.

São poucos aqueles que realmente se dispõem a pensar além.

Basta observar as redes sociais. Quantas delas não representam apenas tentativas de reproduzir aquilo que algum influenciador já fez?

Essa busca constante por influência, sem a devida valorização das pessoas que já fazem parte da nossa jornada, formam indivíduos que mudam conforme a tendência do momento.

Esse também é um retrato da crise de identidade.

Vejo ainda uma relação muito próxima com aquilo que o Dr. Augusto Cury denominou de Síndrome do Pensamento Acelerado.

Segundo ele, o excesso de estímulos e de “janelas abertas” nos faz perder a âncora.

São tantos projetos, tantas influências e tantas informações que se torna difícil permanecer firme naquilo que realmente faz sentido para o nosso ser.

A verdade é que estamos conduzindo a sociedade para um momento em que o “eu” corre o risco de nunca existir plenamente.

  • O ser humano precisa ser construído.
  • Precisa evoluir.
  • Precisa ressignificar aquilo que aprende.

Mas, quando passamos a viver apenas por comandos prontos e receitas produzidas por terceiros, sem reflexão e sem questionamento, corremos o risco de formar uma sociedade que, ao invés de evoluir, desaprenda a pensar.

É necessário romper esse ciclo.

As vivências precisam voltar a fazer parte da nossa jornada.

Precisamos recuperar a capacidade de sentir a beleza das coisas simples, a gratidão pelos momentos vividos e a alegria de construir um caminho próprio.

A vida é boa demais para ser vivida apenas como o projeto de alguém.

Ela precisa ser, antes de tudo, a construção consciente do nosso próprio ser.

Mas existe uma reflexão ainda mais profunda.

Talvez seja justamente por isso que eu veja a crise de identidade como um dos maiores problemas da atualidade. Uma pessoa sem identidade dificilmente experimentará uma fé madura, porque continuará vivendo a partir das experiências, opiniões e convicções de terceiros.

O cristianismo nunca foi um convite para repetirmos a experiência espiritual de outra pessoa. Desde o início, ele nos chama a um encontro pessoal com Jesus Cristo, por meio da ação do Espírito Santo.

É nessa experiência que o conhecimento se transforma em convicção.

Que a religião se transforma em relacionamento.

Que a informação se transforma em vida.

Por isso afirmo que o cristianismo encontra seu pleno sentido na vivência com o Espírito Santo.

Talvez seja justamente essa a maior crise da nossa geração: vivemos em uma sociedade que desaprendeu a experimentar. Queremos respostas rápidas, fórmulas prontas, influenciadores para seguir e opiniões para repetir. Mas Deus continua chamando homens e mulheres para uma experiência pessoal com Ele.

A família continua sendo o berço de tudo porque é nela que nasce a curiosidade, que aprendemos a amar, que experimentamos os primeiros “nãos”, que começamos a construir nossa identidade e que damos os primeiros passos na fé.

Quando essa identidade amadurece, deixamos de viver a vida que outros projetaram para nós e passamos a viver o propósito para o qual fomos criados.

E creio que não existe identidade mais plena do que aquela encontrada em Cristo, pois somente Ele é capaz de restaurar o ser humano por completo: mente, corpo e espírito.

 

Comparilhe:

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais

Noticias relacionadas