Quando a fé é colocada à prova, você vai desistir ou perseverar? | Fé, tribulação e esperança | Além do CHA

Nesta semana, tive vários momentos em que a palavra perseverança esteve presente nos meus momentos de reflexão e oração. Sei que é uma missão de todo cristão perseverar na fé, mas como é difícil não se entregar diante de tantas situações que teimam em abalar nossa fé, não é mesmo?

Na Psicanálise, a palavra perseverança pode ter uma relação direta com a nossa capacidade de nos mantermos firmes diante dos desafios que são apresentados diariamente. Mas, para isso, é essencial que tenhamos em nós uma fé em algo que seja transcendental, afinal, na maioria das vezes em que somos provados e necessitamos perseverar, surge uma pergunta que todos costumam fazer: por que ou por quem lutarei? Dependendo da resposta a esse questionamento, muitos preferem alguma forma de fuga, que prefiro não abordar aqui, mas, como ouvi recentemente em um podcast: “tomar uma decisão permanente por algo que é temporário”. Espero que entendam do que se trata. Em um mundo onde tudo passa, a fé em Deus entrega ao ser humano a certeza de que, mesmo diante das maiores provações possíveis, existe um Criador que permanece e que nos dará forças para continuar enfrentando aquilo que estamos vivendo com perseverança.

Ao continuar refletindo sobre a palavra perseverança, percebi que, na carta do Apóstolo Paulo aos Romanos, em seu capítulo 5, algumas traduções mais atuais trazem a ideia de que as tribulações geram perseverança, a perseverança gera experiência e a experiência fortalece a esperança. Já algumas versões mais antigas utilizam a palavra paciência. Não vou me estender sobre questões relacionadas às traduções, mas achei muito interessante termos essas duas leituras, afinal, paciência é uma característica comum daqueles que conseguem permanecer em paz, aguardando e confiando que o Criador dará forças para superar mais um momento desafiador. Já no cenário em que encontramos a palavra perseverança, temos um momento de questionamento, de guerras, de lutas, enfim, um cenário onde nossa paciência é testada e que, se não houver perseverança, a tendência pode ser o esfriamento da nossa fé. Paulo apresenta, em Romanos 5:3-5, uma sequência muito interessante: a tribulação produz perseverança; a perseverança produz experiência; e a experiência produz esperança.

Ao refletir sobre as questões aqui postas, percebi o quanto a perseverança torna o processo de superação das tribulações um processo de maior protagonismo daquele que passa por elas. Nas dificuldades da vida, seremos testados, e não basta ter apenas paciência; é necessário perseverar, ou seja, não se entregar a pensamentos que alimentem em nós um sentimento de que aquilo se trata de um caso perdido. Perseverar não significa não sentir dor, não significa não chorar e muito menos significa fingir que está tudo bem. Perseverar significa continuar, mesmo quando as circunstâncias dizem que deveríamos parar. Significa não permitir que uma situação difícil de hoje determine a nossa capacidade de acreditar que o amanhã ainda pode ser diferente.

Não faltam exemplos nas Escrituras Sagradas de personagens que perseveraram na fé em Deus e alcançaram aquilo que desejavam. Lembro-me de Noé. Quantos anos ele não foi ridicularizado? Quantas tribulações não passou? A Bíblia nos mostra que Noé andava com Deus e que fez tudo conforme aquilo que o Senhor havia ordenado (Gênesis 6:9, 22). Não tenho dúvidas de que, se ele não perseverasse na fé, não haveria a arca e toda a história que conhecemos após o grande dilúvio. Noé nos ensina que existem momentos em que precisamos continuar fazendo aquilo que acreditamos ser a vontade de Deus, mesmo quando aqueles que estão ao nosso redor não compreendem.

Mais à frente, lembro-me de José, que, mesmo tendo encontrado seu chamado ainda pequeno, em sonho, sofreu com a inveja e, por isso, foi entregue por seus irmãos como escravo para uma terra estrangeira (Gênesis 37). Mesmo como servo em terra estrangeira, José seguiu perseverante na fé e, por negar o pecado, foi caluniado e jogado em uma prisão por anos (Gênesis 39). Novamente, quantas provações ele não teve? Quantas oportunidades não teve para deixar de ter fé de que um dia seus sonhos se realizariam? Andando pela história, sabemos que, depois de muitos anos, e por meio de um dom maravilhoso de interpretação de sonhos dado por Deus, José se tornou governador do Egito (Gênesis 41:38-41). Mas existe um detalhe ainda mais significativo nessa história: o cumprimento do sonho que José havia recebido quando ainda era jovem aconteceu quando seus próprios irmãos se curvaram diante dele (Gênesis 42:6; 43:26-28). Aqueles mesmos irmãos que haviam sido responsáveis por vendê-lo como escravo agora estavam diante dele, sem inicialmente compreender que aquele governador era justamente o irmão que haviam vendido. E, naquele momento, aquilo que parecia impossível estava acontecendo. José não apenas havia sobrevivido às provações; ele havia chegado ao lugar que Deus permitira que ocupasse e estava vendo parte daquele sonho se cumprir diante dos seus próprios olhos. A história ainda mostra que, por meio daquela posição, José participou da preservação de muitas vidas durante os sete anos de fome, inclusive da sua própria família e da casa de seu pai, Jacó (Gênesis 41–47).

Mais à frente, tivemos ainda Davi, sendo ungido rei quando era jovem. Mas, antes de o propósito de Deus se cumprir em sua vida, sua fé foi testada no pasto, onde venceu o leão e o urso (1 Samuel 17:34-37), e também diante do gigante Golias, quando o Senhor dos Exércitos mostrou que estava com Davi (1 Samuel 17). A vida daquele jovem seguiu, mas, antes de ter o cumprimento do seu chamado, foi necessário enfrentar perseguições, momentos de caverna, muitas lágrimas e lutas. Davi teve oportunidades para desistir, teve momentos em que sua vida esteve em risco e passou por situações que certamente colocaram sua confiança em Deus à prova. Mas sabemos que o resultado da perseverança de Davi foi o recebimento da coroa de rei e o cumprimento do propósito que Deus tinha para sua vida.

As histórias seguem nas Escrituras Sagradas. Poderíamos falar aqui de Daniel e de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que, mesmo estando em terra estrangeira, mantiveram-se fiéis à lei de Deus. Sadraque, Mesaque e Abede-Nego passaram pela fornalha de fogo ardente porque não aceitaram se curvar diante daquilo que contrariava sua fé (Daniel 3), enquanto Daniel foi lançado na cova dos leões por permanecer fiel ao seu Deus e continuar orando, mesmo diante da proibição estabelecida pelo rei (Daniel 6). Sabemos que, no final dessas histórias, Deus os honrou. E aqui novamente encontramos algo que se repete: a circunstância era contrária, as pessoas ao redor poderiam pressionar, a vida poderia estar em risco, mas a decisão de permanecer fiel não dependia da facilidade do caminho.

Andando um pouco para o Novo Testamento, vemos, por exemplo, a história do enfermo que estava havia trinta e oito anos esperando à beira do tanque de Betesda pela cura da sua enfermidade (João 5:1-9). Em seus planos havia a esperança de que alguém o colocasse nas águas quando elas fossem movimentadas. Mas, quando chegou o tempo de sua libertação, ele encontrou o próprio Jesus Cristo, que lhe anunciou: “Levanta-te, toma o teu leito e anda” (João 5:8). Imagino que cada passo daquele homem após sua cura tenha sido motivo de glória e júbilo. Foram trinta e oito anos de espera, e, quando encontrou Jesus, sua história mudou. É importante perceber que o texto bíblico não apresenta a perseverança como uma espécie de fórmula que obrigaria Deus a realizar um milagre, mas nos mostra um homem que permaneceu diante daquela realidade durante muitos anos, até encontrar aquele que poderia mudar completamente sua história.

Claro que há outros exemplos, mas retirei estes para demonstrar o quanto a fé em Deus é essencial em momentos em que não faltam pessoas que duvidem daquilo que entendemos ser o propósito de Deus para nossa vida. A perseverança não significa ter todas as respostas. Muitas vezes, significa continuar confiando mesmo quando ainda não conseguimos compreender o que Deus está fazendo.

Nesta semana, conversei com um irmão em Cristo que está passando por um momento muito difícil, e este confidenciou a mim o desejo de fugir para outro país. Minha resposta para ele foi que me sentia triste ao ler aquela mensagem, pois sei o quanto Deus usa a vida dele para ajudar outras pessoas. Tenho a certeza de que Deus há de abençoá-lo independentemente do lugar onde esteja, mas a fuga nunca é a melhor escolha quando ela representa simplesmente uma tentativa de abandonar aquilo que estamos vivendo sem antes compreender o que podemos aprender com esse processo. O perseverar entrega para nós a experiência necessária para que tenhamos o fortalecimento da nossa esperança. E, sem esperança, nunca teremos a fé necessária para continuar acreditando que existe um Criador, que é justo e que conhece o momento certo para cumprir aquilo que tem como propósito para nossa vida.

A fuga pode ser de diversas formas, e a pior delas é quando o ser humano toma “uma decisão permanente para algo que é temporário”, como acontece no suicídio. Nossa vida é uma dádiva de Deus, e não tenho a menor dúvida de que, independentemente do que estamos passando hoje, se a nossa opção é pelo perseverar, significa que nossa confiança independe das promessas de homens, independentemente do tamanho do seu poder aqui na Terra. A nossa confiança está no Senhor que fez os céus e a terra. Isso não significa ignorar o sofrimento ou acreditar que basta ter fé para que todos os problemas desapareçam. Existem momentos em que precisamos falar, pedir ajuda, procurar pessoas de confiança e buscar auxílio profissional. Pedir ajuda não significa falta de fé; em muitos momentos, pedir ajuda é justamente uma maneira de perseverar.

Quando a dor parece não ter fim, nossa mente pode tentar nos convencer de que não existe mais caminho. É nesse momento que precisamos lembrar que o momento que estamos vivendo não é toda a nossa história. A tribulação pode ser real, a dor pode ser profunda, as lágrimas podem ser verdadeiras, mas ainda assim existe a possibilidade de um novo capítulo. Perseverar é escolher continuar enquanto esse novo capítulo ainda não chegou.

Talvez seja justamente por isso que Paulo apresenta uma sequência tão poderosa em Romanos 5. Ele não começa falando de esperança sem antes falar de tribulação. Ele nos mostra que existe um processo. A tribulação produz perseverança; a perseverança produz experiência; e a experiência produz esperança. Não é uma romantização do sofrimento, mas uma compreensão de que aquilo que atravessamos pode produzir em nós algo que não existia antes.

Por isso, quando a próxima tribulação chegar — porque outras virão — talvez a pergunta não deva ser apenas: “Quando isso vai acabar?” Talvez também devêssemos perguntar: “O que Deus deseja produzir em mim enquanto atravesso isso?”

Não sabemos quanto tempo durará determinada provação. Não sabemos quantas lágrimas ainda serão derramadas. Não sabemos quantas portas ainda serão fechadas. Mas podemos decidir onde colocaremos nossa confiança enquanto caminhamos.

Aqueles que confiam no Senhor não são pessoas que nunca passam por dificuldades. São pessoas que aprenderam que, mesmo quando tudo ao redor parece estar se movendo, existe uma Rocha sobre a qual podem permanecer firmes.

É por isso que a Palavra de Deus diz:

“Os que confiam no SENHOR serão como o monte de Sião, que não se abala, mas permanece para sempre.”
Salmos 125:1

Perceba a força dessa passagem: não se abala, mas permanece.

Talvez seja exatamente isso que precisamos aprender sobre perseverança. Não significa que nunca seremos abalados. Significa que, mesmo quando formos abalados, não precisamos ser destruídos. Podemos chorar e continuar. Podemos ter medo e continuar. Podemos não compreender e continuar. Podemos até perguntar a Deus “por quê?”, sem necessariamente abandonar a nossa fé.

A perseverança não elimina as tribulações. Ela nos ensina a atravessá-las.

E talvez seja justamente por isso que Paulo começa sua sequência falando de tribulação e termina falando de esperança. Porque quem persevera não é necessariamente aquele que nunca sofre; é aquele que, mesmo sofrendo, continua acreditando que sua história não termina na tribulação.

Como cristãos, nossa esperança não está apenas naquilo que podemos conquistar nesta vida. Nossa esperança está em Deus. Está na certeza de que existe um Criador que permanece quando tudo ao nosso redor passa. Está na promessa de que nossa caminhada possui um propósito maior do que aquilo que conseguimos compreender hoje.

Por isso, não desista no meio da história.

Persevere.

Confie no Senhor, busque ajuda quando precisar, permita-se aprender com aquilo que está vivendo e mantenha a esperança. Afinal, aquilo que hoje parece ser o fim pode ser apenas mais um capítulo de uma história que ainda não terminou.

Que Deus nos dê forças para perseverar, sabedoria para compreender os processos, humildade para pedir ajuda quando necessário e, acima de tudo, fé para continuar caminhando mesmo quando ainda não conseguimos enxergar o que existe depois da próxima curva.

Que nossa perseverança seja sustentada pela fé, nossa fé seja fortalecida pela esperança e nossa esperança permaneça firmada no Senhor.

Amém!

Sejam bem-vindos ao momento Inteligência Além do CHA.
Além da leitura deste artigo, convido você a assistir aos meus comentários sobre esta reflexão no vídeo:

Assista aqui: https://www.youtube.com/live/TJOF3iV1HQ4?si=vgaKRf-l37Am-Mc3

Assista, reflita e tire suas próprias conclusões.

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