Nesta semana compartilhei mais de uma notícia sobre o endividamento das famílias brasileiras, que já ultrapassa os 80%, e sobre o fato de que muitas delas estão chegando ao final do mês com grandes dificuldades. Neste cenário, me lembrei da pirâmide de Maslow, especialmente da relação que o autor estabelece entre as necessidades humanas, a segurança, o pertencimento e a autoestima. Afinal, como é difícil sorrir e compartilhar momentos em comunidade quando falta o alimento em nossa mesa, ou mesmo quando a quantidade de dívidas começa a nos trazer preocupações com o futuro.
As relações sociais são essenciais para nosso desenvolvimento e, na teoria de Maslow, as necessidades de pertencimento e amor aparecem relacionadas ao processo de desenvolvimento humano, assim como a autoestima. Esta última, que podemos compreender também como uma percepção de valor sobre nós mesmos, é essencial para uma vida saudável em comunidade. Quando estamos constantemente pressionados por incertezas, dívidas, insegurança e preocupações com o futuro, não estamos falando apenas de números em uma planilha financeira; estamos falando de sentimentos que podem afetar nossa capacidade de sonhar, planejar e até mesmo de nos relacionarmos com as pessoas que estão ao nosso redor.
É neste cenário de incertezas que acredito que a inteligência espiritual pode ser essencial para que consigamos transformar dificuldades em oportunidades. Quando olhamos para uma situação pela perspectiva da análise SWOT, por exemplo, percebemos que mesmo em um cenário ameaçador existem forças, oportunidades, fraquezas e ameaças que precisam ser analisadas. Aqueles que conseguem manter a capacidade de pensar mesmo diante da pressão encontram possibilidades que talvez não fossem percebidas por alguém completamente dominado pelo medo.
Ainda falando de Maslow, é importante trazer aqui o fato de que, logo após desenvolver suas ideias sobre o processo necessário à autorrealização, ele passou a discutir a transcendência como uma dimensão que poderia ultrapassar a própria realização do indivíduo. É justamente neste ponto que vou um pouco além neste debate.
Em um cenário de incertezas, onde existe uma dificuldade clara de se ter uma vida em que todas as necessidades básicas estejam atendidas, aquilo que transcende, ou seja, aquilo que acreditamos sem ver, pela fé, passa a ter um papel essencial para nosso desenvolvimento. É justamente aqui que mora o fundamento desta reflexão: em momentos de dificuldade, nossa tendência pode ser o desespero, a revolta e, muitas vezes, o isolamento. E esta, na minha visão, é uma das piores decisões que alguém pode tomar.
Diferente de Maslow, compreendo que a fé não deve ser colocada apenas depois da realização pessoal. Para mim, como cristão, ela deve estar presente durante toda a nossa caminhada. A fé é essencial para que consigamos valorizar aquilo que já temos, e cada passo pode ser superado quando existe gratidão a Deus por cada conquista, mesmo quando ainda estamos muito longe de alcançar aquilo que desejamos.
Estamos em um momento em que não faltam motivos para nos entristecer. São notícias sobre economia, violência, desemprego, endividamento, conflitos familiares e tantas outras situações que podem nos colocar diante de momentos de baixa autoestima. Mas quem tem o Poder de, mesmo neste período, devolver nossa capacidade de sonhar e planejar um futuro diferente? Para mim, esta resposta está justamente em Deus.
E existe outro ponto que precisa ser observado. Em um período de crise, não é apenas uma pessoa que está passando por dificuldades. Muitas vezes, trata-se de uma família, de uma comunidade e até mesmo de uma sociedade inteira enfrentando problemas semelhantes. É neste momento que as inteligências emocional e social se tornam ainda mais importantes.
A inteligência emocional é um conceito mais conhecido, e sabemos que ela é essencial para diversas áreas da nossa vida, inclusive para conseguirmos enxergar possibilidades positivas em cenários de incerteza. Mas pouco se fala sobre a relação dela com a inteligência social. Se somos seres que se desenvolvem também a partir das relações, então não podemos imaginar que enfrentaremos todas as dificuldades sozinhos.
Maslow apresenta a dimensão social como parte importante do desenvolvimento humano, e eu vou além: a socialização é essencial para nosso desenvolvimento pessoal e também para nossa formação educacional. Quando entendemos que não é porque as coisas estão mais difíceis que devemos nos isolar, passamos a perceber a importância de estar junto de pessoas que também estão buscando, na fé e na criatividade, oportunidades em meio ao caos.
Foi justamente fazendo esta conexão entre a análise SWOT, a importância do social e aquilo que transcende o indivíduo que cheguei ao problema da solidão. Não há beleza em desejar estar sozinho o tempo inteiro. Ambientes de convivência e troca são essenciais, especialmente em momentos de dificuldade. Por isso, mesmo sem forças, não podemos deixar de estar em família, não devemos abandonar os ambientes onde existem pessoas que compartilham propósitos e não podemos permitir que uma fase difícil nos faça acreditar que precisamos carregar tudo sozinho.
Existe, porém, um ambiente que une propósito, fé e comunhão e que, ao frequentá-lo, nos lembramos da gratidão de estarmos vivos e da oportunidade que temos de buscar a Deus diretamente, por intermédio de seu Filho Jesus Cristo, que, em sua morte na cruz, nos abriu acesso ao Criador. Estou falando da igreja.
Ao frequentarmos a igreja, podemos, ainda que por alguns momentos, colocar nossos problemas diante de Deus, agradecer pelo que temos e ouvir uma palavra que alimente nossa esperança. E, ao sair daquele ambiente, conexões são feitas entre os irmãos, criando a certeza de que, além de Deus, não estamos caminhando sozinhos. Existe uma comunidade que pode orar conosco, nos ouvir, nos aconselhar e, muitas vezes, simplesmente caminhar ao nosso lado.
Vejo este sentimento como essencial para manter nossa autoestima em um cenário como o que estamos vivendo.
Mas você está defendendo a ida ao templo?
Sim, com certeza.
Mais do que simplesmente ir ao templo, que aqui chamamos de igreja, precisamos frequentar ambientes onde existam reflexões que alimentem nossa esperança e relações que contribuam para nosso desenvolvimento. Claro que não é apenas na igreja que podemos encontrar isso. Estar em família também é um remédio essencial para este momento. Outro ambiente que vem crescendo são as reuniões de *networking*, onde pessoas se reúnem para construir conexões que podem ser importantes tanto profissionalmente quanto pessoalmente.
O fato é que uma das piores coisas que podemos fazer diante de uma crise é nos entregarmos à inércia da solidão. A própria Bíblia nos apresenta, desde o princípio, um princípio que continua atual: “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18).
A questão é que existem pessoas tão fechadas em si mesmas que, mesmo quando estão em ambientes onde a troca é bem-vinda, continuam isoladas. E isto não deve ser romantizado. Uma jornada sozinho é muito mais difícil do que aquela em que temos amigos e familiares ao nosso lado, incentivando-nos e, de alguma maneira, tornando nosso fardo um pouco mais leve.
E aqui faço uma conexão ainda mais profunda com a fé cristã.
Jesus Cristo nunca prometeu aos seus seguidores uma vida sem dificuldades. Pelo contrário, Ele disse: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16:33). A esperança cristã não está na ausência de problemas, mas na certeza de que não enfrentamos esses problemas sozinhos.
Foi o próprio Cristo quem também nos convidou:
“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” (Mateus 11:28)
Percebam a profundidade desta mensagem? Cristo não disse que não teríamos cargas. Ele nos convidou a levar nossas cargas até Ele.
Por isso, quando penso na transcendência apresentada por Maslow e a observo a partir da minha fé, encontro uma diferença fundamental. Não estou falando simplesmente de acreditar em algo que está além de nós. Estou falando de confiar em um Deus que, para o cristão, não é uma ideia abstrata, mas um Deus vivo, que ouve, responde, orienta e sustenta seus filhos.
Então, diante de uma fase difícil, precisamos nos perguntar: estamos buscando em Deus, que está neste universo transcendental, a força para superar os cenários dificultosos? Nossa fé em Deus é tão grande que, por ela, conseguimos enxergar uma luz mesmo em momentos de escuridão?
Talvez esta seja uma das maiores batalhas que enfrentamos hoje. Não apenas conseguir pagar uma conta, superar uma dívida ou encontrar uma oportunidade profissional, mas conseguir manter a nossa capacidade de acreditar que existe um amanhã diferente.
E aqui entra novamente o pensamento crítico. Não estou dizendo que basta ter fé e deixar de agir. Ao contrário. A fé cristã nunca deveria ser utilizada como desculpa para a inércia. Precisamos pensar, planejar, trabalhar, buscar ajuda, desenvolver competências, construir relacionamentos e encontrar soluções. Mas tudo isso pode ser feito sem perder a esperança.
Afinal, quando uma pessoa está completamente dominada pelo medo, ela deixa de enxergar possibilidades. Quando encontra pessoas que caminham ao seu lado, recupera parte da sua força. Quando desenvolve inteligência emocional, passa a administrar melhor suas emoções. Quando desenvolve inteligência social, compreende que não precisa construir tudo sozinha. E quando coloca sua confiança em Deus, encontra uma dimensão que vai além daquilo que seus olhos conseguem enxergar.
Talvez seja justamente por isso que a solidão seja tão perigosa em momentos de crise. Ela nos faz acreditar que o problema é exclusivamente nosso, que ninguém nos entende e que não existe saída. Mas a comunidade nos lembra de que existem outras pessoas caminhando conosco, enquanto a fé nos lembra de que existe um Deus que continua presente mesmo quando não conseguimos enxergar a solução.
Para fechar este artigo, lembro daquele que disse que não devemos carregar sozinhos aquilo que nos parece impossível, pois Nele encontramos descanso. E talvez a grande pergunta deste artigo seja justamente esta:
Quando a crise chegar (e ela chegou), para onde você vai correr?
Para o isolamento?
Para o desespero?
Para as receitas prontas que alguém oferece nas redes sociais?
Ou para Deus, para sua família, para seus amigos e para uma comunidade que possa caminhar com você?
A vida continuará apresentando fases difíceis. Algumas delas parecerão impossíveis de superar. Mas a nossa construção durante os anos nos prepara para compreender que uma fase difícil não representa necessariamente o fim da jornada.
Existe espaço para o impossível acontecer.
Só que, muitas vezes, o impossível começa quando deixamos de acreditar que estamos sozinhos.
E, como cristão, acredito que existe algo ainda maior: há momentos em que nossa força acaba justamente para que possamos descobrir que a nossa esperança nunca esteve fundamentada apenas na nossa própria capacidade.
Que Deus nos dê forças para nunca deixarmos de crer em sua providência diante das fases que parecem impossíveis. E que, mesmo em meio às dificuldades, possamos continuar sendo comunidade, mantendo viva a esperança e levando esta mesma esperança àqueles que já não conseguem enxergar uma saída.
Porque, se a nossa fé nos faz tão bem, não podemos guardar esta esperança apenas para nós. Há pessoas esperando encontrar uma razão para continuar.
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