Quando me propus a escrever sobre aquilo que vai além da competência resultante da junção de Conhecimento, Habilidades e Atitudes, não há dúvidas de que o sentimento que mais está presente no meu livro Inteligência além do CHA: equilibrando corpo, mente e espírito, é justamente o amor.
Falar de amor parece ser algo fácil para alguns, pois trata-se de um sentimento que todos nós acreditamos ter. Mas, toda vez que ouço alguém tratar o amor como algo que se resume a momentos ou até mesmo a um simples sentimento que pode ser resumido pela palavra caridade, vem-me o questionamento: será que essa pessoa já leu a carta do Apóstolo Paulo, no capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios? Imagino que não, pois, se tivesse lido, compreenderia que o amor descrito pelo apóstolo está muito mais relacionado à perfeição do que a qualquer outra palavra.
O começo do capítulo-base deste artigo foi muito bem descrito por Renato Russo na música Monte Castelo, especialmente no seguinte fragmento:
“Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria”
E a música continua:
“É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece”
A canção, inclusive, estabelece uma relação muito interessante entre o texto bíblico de 1 Coríntios 13 e a literatura de Camões. Mas, retornando ao capítulo em questão, a defesa de que o amor está relacionado à perfeição fica ainda mais clara quando o apóstolo Paulo descreve:
“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.” 1 Coríntios 13:4
Já na primeira parte, a frase “o amor é sofredor” traz uma reflexão complexa, pois a sensação que temos muitas vezes é de que é impossível amar estando em sofrimento. Mas o fato é que, se estivermos motivados apenas por nossos desejos, temos grandes possibilidades de não praticarmos apenas ações benignas, e tentamos justificar tais atitudes dizendo ser impossível sermos bons o tempo inteiro.
O sentimento de inveja não combina com o amor ao próximo, pois, conforme descrito pelo dicionário Michaelis, inveja está relacionada ao sentimento de tristeza, desgosto ou ressentimento diante da felicidade, do sucesso ou da prosperidade de outra pessoa, acompanhado do desejo de possuir aquilo que o outro possui ou de que o outro perca aquilo que conquistou. Então fica claro que ter amor e inveja habitando a mesma relação com o próximo é algo contraditório. Se eu verdadeiramente desejo o bem do outro, não posso, ao mesmo tempo, desejar que ele perca aquilo que possui simplesmente porque eu gostaria de estar no lugar dele.
No verso em destaque existem ainda outras duas características que precisam ser destacadas. A primeira seria tratar os outros de forma leviana, ou seja, de forma irresponsável, sem o devido cuidado com aquilo que fazemos ou com as consequências que nossas atitudes podem produzir na vida do outro. Já a outra característica, para mim, é ainda mais perigosa, e estamos falando da soberba. E, para esta palavra, lembro-me do provérbio:
“A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda.” Provérbios 16:18
Fica claro o quanto as atitudes aqui expostas não convergem com alguém que afirma ter amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, conforme ensinou Jesus Cristo em Mateus 22:37-39. Afinal, como posso dizer que amo a Deus e ao próximo se, ao mesmo tempo, alimento inveja, soberba, irresponsabilidade e desprezo pelo outro?
Mas as lições tratadas neste capítulo vão além. O próximo verso fala de indecência, da busca pelos próprios interesses, da irritação e de pensar ou suspeitar mal do próximo:
“Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal.” 1 Coríntios 13:5
Indecência é algo que hoje parece regra, e não falo apenas da forma de se vestir. Quando tratamos de pessoas indecentes, ou seja, de pessoas que agem de forma que foge à moral e à ética, estamos falando de pessoas que podem praticar, entre outras coisas, corrupção, tirania, suborno, desonestidade, difamação, crueldade, exploração, fraude, ganância e tantas outras ações que ferem a moral e a dignidade do próximo.
Alguém imagina uma pessoa que não busca seus próprios interesses, que não se irrita e que não suspeita mal? Se alguém imaginou, viu uma pessoa perfeita. Mas é justamente aí que o próprio Evangelho de Jesus Cristo ganha sentido: não faria sentido falar da graça se fosse possível chegar à perfeição apenas por nossas próprias forças. Por isso, conforme as lições vão sendo apresentadas, fica cada vez mais claro para nós que o apóstolo estava descrevendo um padrão de amor que ultrapassa aquilo que conseguimos produzir naturalmente. E aqueles que conseguem seguir a vida buscando alcançar o amor aqui descrito estão em uma jornada na qual suas atitudes passam a revelar frutos da graça.
O verso seguinte, para mim, é o que mais se encaixa ao momento atual, pois, para o apóstolo, o amor:
“Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade.” 1 Coríntios 13:6
Ou seja, quem ama não se alegra com a injustiça, independentemente de quem esteja sendo vítima dela. E por que digo que este ensinamento se encaixa no momento atual? A verdade é que estamos vivendo em um cenário no qual a sociedade está se dividindo por pontos de vista sobre os mais diversos assuntos, em uma espécie de divisão em polos. Nesse cenário, o que não faltam são pessoas que se dizem seguidoras dos mandamentos de Cristo comemorando injustiças praticadas contra aqueles que fazem parte de um polo diferente.
E aqui o sentimento descrito pelo apóstolo passa a ser testado o tempo inteiro.
É possível ter amor quando alguém se regozija com a injustiça praticada contra o próximo?
Essa é uma pergunta que cada um de nós precisamos responder diante da nossa própria consciência.
Fica ainda mais evidente a relação entre amor e perfeição quando o apóstolo descreve que quem ama sofre, crê, espera e suporta todas as coisas:
“Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” 1 Coríntios 13:7
Então fica claro que, por força humana, seria impossível levar uma vida inteira seguindo com perfeição cada um dos ensinamentos apresentados neste capítulo. No entanto, a Bíblia nos orienta que a fé sem obras é morta (Tiago 2:17), e fica claro, em diversos momentos das Escrituras, que o contexto dessas obras está diretamente relacionado ao amor.
Percebamos que, ao falarmos de amor, estamos falando de evolução contínua, de uma busca que deveria nos levar a orar para que Deus nos capacite a amar cada vez mais. Afinal, o capítulo termina com uma das afirmações mais conhecidas de Paulo:
“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.” 1 Coríntios 13:13
Ou seja, como cristãos, devemos buscar os dons espirituais. Muitos têm o dom da profecia, outros falam em línguas, e tantos outros dons são apresentados nas Escrituras. Mas existe algo que não podemos esquecer: antes de qualquer dom, existe a maneira como utilizamos aquilo que recebemos. Paulo dedica todo esse contexto para mostrar que os dons espirituais, quando não estão acompanhados pelo amor, perdem seu verdadeiro sentido. O amor não é apenas mais uma característica da vida cristã; ele é apresentado como o caminho excelente que deve orientar todas as outras coisas (1 Coríntios 12:31–13:1).
Permanecem a fé e a esperança. E o próprio apóstolo Paulo descreve que devemos nos gloriar nas tribulações, porque a tribulação produz perseverança, a perseverança produz experiência, e a experiência produz esperança (Romanos 5:3-5). É interessante perceber que nossas experiências, inclusive aquelas produzidas pelo sofrimento, podem nos conduzir a uma esperança mais amadurecida. E uma pessoa que desenvolve esperança passa a compreender que nem todas as vitórias precisam acontecer imediatamente, porque algumas vitórias já foram conquistadas justamente pela experiência de atravessar aquilo que parecia impossível.
Uma vida sem esperança é uma vida sem fé. E, claro, para esse tipo de vida, só interessam os resultados; pouco importam os meios utilizados para alcançá-los. Desta forma, o que diferencia um cristão, ao ler esses ensinamentos, está justamente na compreensão de que o propósito do cristão não está em ajuntar tesouros na terra, mas em viver uma vida cujas obras reflitam a fé em um lar eterno e celestial, conforme ensinou Jesus em Mateus 6:19-21.
Desta forma, um cristão compreende que, por suas próprias forças, seria impossível atingir o amor descrito neste capítulo. Por isso, oramos para que Deus nos capacite, para que nossas atitudes sejam transformadas e para que, um dia, nossas obras reflitam cada vez mais o próprio Cristo em nós. Não se trata de afirmar que já alcançamos a perfeição, mas de reconhecer que existe um padrão para o qual devemos caminhar, sabendo que a graça de Deus é indispensável nessa caminhada.
Ao final desta reflexão, acredito que tenha ficado claro o tamanho da palavra amor e o quanto mirar esse padrão significa buscar obras segundo o coração de Deus. Amor não é apenas sentimento. Amor não é apenas caridade. Amor não é apenas aquilo que sentimos quando alguém nos trata bem. O amor descrito por Paulo é muito maior do que isso. Ele confronta nossa inveja, nossa soberba, nossa irritação, nossa busca por interesses próprios e até mesmo nossa capacidade de comemorar quando o outro sofre.
Talvez seja exatamente por isso que falar de amor seja tão fácil, mas viver o amor seja tão difícil.
Porque falar de amor não exige transformação. Viver o amor exige.
Que Deus nos capacite a ter o amor que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Que nossa fé não seja apenas discurso, que nossas obras não sejam apenas aparência e que nossos dons nunca sejam maiores do que o amor que deveria conduzir nossas atitudes.
Amém!
Sejam bem-vindos ao momento Inteligência Além do CHA.
Além da leitura deste artigo, convido você a assistir aos meus comentários sobre esta reflexão no vídeo:
YOUTUBE: https://www.youtube.com/live/_tQdWhSzQQU?si=9M3LClx3iG9_UCmE
Assista, reflita e tire suas próprias conclusões.
