Ludicidade, criatividade e a fé naquilo que não podemos tocar

Nesta semana terminei de lecionar a disciplina de Ludicidade para o curso de Pedagogia e, ao falar sobre este assunto, fui inspirado por Deus a escrever mais esta reflexão.

Muitos acreditam que a ludicidade é algo dispensável e, até na educação, trabalhar com o lúdico, por ser algo trabalhoso, costuma ser deixado de lado. No entanto, este assunto não é apenas um assunto da educação. Quando falamos de lúdico, estamos falando de algo cujo desenvolvimento se dá na imaginação.

Nesta disciplina, ao falar sobre jogos, brinquedos, brincadeiras e, o mais importante, sobre a importância disso no desenvolvimento de uma criança, fiz uma ampliação deste conceito também para a vida adulta e até para a terceira idade.

Quando falamos de imaginação, é impossível não falarmos da crise de criatividade que hoje as empresas identificam nos jovens que estão buscando emprego. Ouvi de vários amigos, ainda em minha época como consultor de empresas, coisas como: “Se eu não desenhar, eles não fazem”, e muitas vezes o que o empregador quer é que seus empregados criem novas soluções, processos, etc. Afinal, uma empresa que não é criativa, não inova e, com isso, está fadada à perda de mercado para os concorrentes que, porventura, tenham colaboradores mais criativos.

Fico me perguntando em qual momento começamos a perder, como sociedade, a afeição pela criatividade e a valorização da abstração. Mesmo não tendo esta resposta, como professor de Matemática, percebo o quanto, nos últimos anos, as crianças, os jovens e até os adultos estão perdendo a capacidade de raciocínio lógico, e aqui é importante relembrar do efeito brain hot. Estamos diante de pessoas que querem receitas prontas, até porque criar algo exige compreender que, durante o processo, haverá erros, falhas e frustrações.

Poderia falar aqui também sobre a quantidade de negócios criativos e inovadores que encontramos hoje em dia. Percebam o quanto isto é um evento raro.

Quando pensamos em um negócio, sabemos que, assim como em um jogo, teremos etapas que precisarão ser superadas e que as falhas durante o processo, quando superadas, tornarão meu negócio mais efetivo.

Para além do jogo no ambiente empresarial, falei na última semana sobre o jogo da vida, onde acredito que Deus nos permite viver este jogo sem que ele seja impossível ou muito fácil, afinal: “Ele não nos dá uma cruz que não possamos carregar”. E, neste jogo da vida, deveríamos ser criativos e inovadores na solução das situações que se apresentam, mas, muitas vezes, valorizamos mais as jogadas erradas do que as pequenas fases superadas.

Ainda neste jogo da vida, retomo a temática da ludicidade para nos lembrar que, quando aquilo que não é material ou concreto deixa de ser importante, muitos começam a redefinir, de forma equivocada, até a imagem do Deus das Escrituras Sagradas.

Passamos então, como cristãos, a ver Deus em nossas conquistas, e não mais no fato de estarmos vivos, termos a chance de sonhar, termos paz em nossa vida, entre outros sentimentos que expressam um Deus que entrega para nós o equilíbrio na alma, para que possamos ver o seu operar até na inspiração de um novo negócio.

Em que momento Deus se tornou Deus apenas quando tenho a melhor casa, o melhor carro, uma família perfeita, entre outras questões que vejo hoje sendo exaltadas em grande parte das igrejas?

Então, falar de Deus, que hoje não é mais um homem, como Jesus Cristo foi por aproximadamente três décadas, tornou-se algo difícil, pois vejo muitos que já não buscam mais o Espírito Santo, não valorizam as pequenas coisas e os pequenos sinais que Deus nos dá todos os dias, com a mensagem: “Eu te amo e cuido de você.”

Até nas pregações, o céu e o inferno têm sido colocados cada vez mais em último plano, e não faltam: “Vou virar seu cativeiro”, “Estou mudando sua história”, “Tirarei o que está embaixo e colocarei por cima”, etc. Percebam que, nestas falas, o que mais está presente é a valorização dos bens e das realizações pessoais, sendo que o que mais deveria ser destacado seria o Reino.

“Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” (Mateus 6:33)

Quando o Reino e a justiça divina passam a ser algo menor, pois trata-se de um fato que exige imaginação, esperança e fé, a pergunta que fica é: Qual evangelho está sendo ensinado?

Voltando para o jogo da vida, qual o final deste jogo para nós, cristãos?

Minha resposta é a vida eterna, e minhas decisões diárias são pautadas na esperança de que chegará este dia, onde cantarei o hino que nunca foi cantado e estarei naquele lugar onde haverá paz, júbilo, louvor e glória, onde não haverá mentira, injustiça, dor, enfermidade e tantos outros males que passamos nesta vida material.

Percebam que, ao falar do final que imagino para este jogo da vida, estou falando de fé: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem.” (Hebreus 11:1). Percebam então que fé e esperança são sentimentos que, portanto, não podem ser reduzidos a algo material.

Agora… uma pessoa que só acredita no que vê, só no que é evidenciado por algo material, não sonha, muito menos busca e acredita naquilo que está no campo da visão. Essa pessoa terá uma fé viva em Jesus Cristo?

Vejo um plano traçado e, quando no artigo passado falei sobre uma espécie de educação para o sistema, estou dizendo que existe um plano para que as pessoas reduzam a figura de Deus a algo menor, que pode ser comprado. Sendo assim, as pessoas ficam cada vez mais ligadas a bens materiais, colocando sua vitória como sendo tais conquistas.

Nunca foi interessante, para aqueles que desejam controlar a massa, ter pessoas que pensam, que são criativas, que têm fé em algo que não pode ser controlado pelo “poder” humano.

Estamos diante de uma crise de identidade, uma crise de criatividade, que resulta em uma crise no cristianismo. Afinal, este último depende que tenhamos sonhos e visões:

“E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos terão sonhos.” (Atos 2:17)

Se estes últimos dias descritos na citação acima fossem hoje, qual seria a nossa reação diante daqueles que profetizariam, teriam visões e sonhos? Será que não exigiríamos, como Tomé, alguma evidência?

O mesmo capítulo que aqui citei fala do falar em novas línguas, algo que por muitos é ridicularizado, mas que o apóstolo Paulo tratou como sendo essencial para alimentar a alma daquele que fala.

Ao irmos à igreja, estamos buscando os céus, o dom do amor — sim, ele é o maior de todos os dons —, o dom da profecia, o dom de falar em línguas e o dom de interpretá-las. Assim, o que alimenta a alma daquele que fala passa a ser profecia para a igreja.

Estamos diante de tempos em que a ausência do lúdico está resultando em uma sociedade que pouco inova e cria, está cada vez mais incrédula quanto às coisas que não se podem tocar, já não se crê nas Escrituras Sagradas como sendo inspiradas pelo próprio Deus, pois neste livro há mistérios que são impossíveis de reduzir a algo material.

No momento em que deixamos de acreditar e viver o que está no campo da abstração, a vida perde a cor e, ao meu ver, muitos, infelizmente, estão perdendo o gosto de viver em função do fato de terem deixado de sonhar, de deixar de crer em Deus e nos céus, no fato de que exista um Criador, que é onipotente, onipresente e onisciente.

Desta forma, você que está lendo este artigo tem uma missão: deixar e incentivar seus filhos a construírem e brincarem com algo que não faça sentido para nós. Incentive-os a ver beleza em tudo, e não apenas naquilo que pode ser comprado.

As crianças precisam voltar a ser crianças, e não pequenos adultos que criam frustrações quando não conseguem comprar algo que desejam.

Talvez seja justamente aqui que esteja uma das maiores mensagens que a ludicidade pode nos ensinar: nem tudo aquilo que não podemos tocar deixa de existir.

A imaginação nos permite sonhar com aquilo que ainda não existe. A criatividade nos permite construir aquilo que um dia existirá. A esperança nos permite continuar caminhando quando ainda não conseguimos enxergar o resultado. E a fé nos permite acreditar naquilo que nossos olhos ainda não podem contemplar.

Talvez seja por isso que uma sociedade que deixa de sonhar também comece, aos poucos, a perder a capacidade de criar.

E, como cristão, acredito que, quando perdemos a capacidade de imaginar aquilo que Deus preparou para nós, também corremos o risco de transformar o Evangelho em algo pequeno demais para aquilo que as Escrituras nos apresentam.

Porque a fé cristã não é apenas sobre aquilo que vemos. É também sobre aquilo que esperamos, aquilo que sonhamos e aquilo que, pela fé, sabemos que um dia veremos.

Sejam bem-vindos ao momento Inteligência Além do CHA.
Além da leitura deste artigo, convido você a assistir aos meus comentários sobre esta reflexão no vídeo:
https://youtu.be/pdqd6qeTz94?si=CTnGAZYWZFu7YY4G

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