Seguindo no tema da crise de identidade, hoje começo falando de uma construção que se inicia em nossa infância e que é essencial para a construção de relações que nos levam ao desenvolvimento integral. Estou falando do período em que reconhecemos o eu, o nós e o outro, que trata-se, inclusive, de uma das diretrizes presentes na Base Nacional Comum Curricular para a Educação Infantil.
Mas por que o reconhecimento do eu, do nós e do outro é tão essencial?
Já vimos que naturalmente temos um período da nossa infância marcado pelo egocentrismo, momento em que tudo que é meu é melhor: tenho o melhor brinquedo, minha casa é melhor, meus pais são melhores, entre tantas outras percepções. Este é um período essencial para a construção do primeiro eu, marcado, neste caso, pelo desenvolvimento do autoconceito, que posteriormente será utilizado na construção da nossa autonomia.
E o outro e o nós?
É chegado um momento em que, ainda criança pequena, começamos a ter que compartilhar as coisas, e a escola, neste momento, torna-se essencial. É neste ambiente que começamos a desenvolver competências sociais que serão fundamentais para a vida em uma sociedade onde o nós sempre poderá produzir resultados maiores do que o eu solitário.
Também neste momento do nós começamos a experimentar as primeiras frustrações, que serão essenciais para o nosso desenvolvimento emocional. Afinal, no momento em que não conseguimos lidar com as perdas, nos tornaremos pessoas que nunca compreenderão que uma vitória, muitas vezes, é resultado de tentativas frustradas, superadas por novas tentativas e estratégias melhoradas.
Mas por que voltar tanto à infância?
A resposta está na construção. Toda construção bem-sucedida é precedida de um alicerce bem realizado. Muitas vezes, ao olharmos para uma construção já pronta, conseguimos perceber que problemas em seus fundamentos podem comprometer toda a estrutura. Da mesma maneira, uma infância marcada por experiências negativas ou, em outro extremo, pelo excesso de zelo e proteção, pode resultar em pessoas com dificuldades para estabelecer relacionamentos sociais e que muitas vezes não conseguem lidar bem com resultados negativos, quando estes deveriam ser compreendidos como mais uma oportunidade de aprendizado, em uma vida onde o presente é um momento de reflexão sobre as lições do passado e de aprendizado para a construção de uma história diferente no futuro.
A autonomia desenvolvida neste ambiente de educação, onde existe o aprendizado de competências sociais e emocionais, também nos conduz à cultura do questionamento, e isto é essencial para nosso desenvolvimento, conforme já escrevi nesta série de artigos.
As primeiras perguntas depois de receber qualquer nova informação deveriam ser: qual é a fonte? Qual é a relevância? Onde posso aplicar? Cabe uma releitura? Existe outro ponto de vista que ainda não considerei?
Por que esta reflexão é necessária?
Para além da possibilidade de evolução a partir do pensamento crítico, acredito que a vida, além de ser uma dádiva de Deus, também pode ser comparada com um jogo. E qual é a nossa reação diante de uma fase de um jogo que não conseguimos passar?
Acredito que a resposta deveria estar na autorreflexão sobre as decisões tomadas naquela fase que não conseguimos superar, precedida de uma pergunta muito simples:
O que posso fazer diferente para passar esta fase?
Neste jogo da vida, estamos diante de uma espécie de engenharia social que constantemente tenta nos entregar receitas para o sucesso. Mas você já percebeu que nenhuma delas é eficaz para a maioria das pessoas?
O motivo talvez esteja justamente no fato de que cada pessoa possui uma história, uma formação, experiências, limitações, talentos e uma maneira própria de interpretar o mundo. Ser vencedor neste mundo não é impossível, mas também não é fácil. Desta maneira, é necessário que construamos nossa própria estratégia. Mas como fazê-la diante de um período em que o pensar está cada vez mais em desuso?
Talvez seja justamente aqui que a construção do eu, do nós e do outro volte a fazer sentido.
Quando construímos nossa identidade, compreendemos quem somos. Quando aprendemos a lidar com o outro, desenvolvemos competências sociais. E quando entendemos que fazemos parte de um nós, percebemos que viver em sociedade significa também compreender que haverá momentos de vitórias e momentos de perdas.
É neste ponto que a frustração deixa de ser apenas um sentimento desagradável e passa a ser uma oportunidade de aprendizado.
Uma derrota pode me ensinar.
Uma crítica pode me ensinar.
Uma tentativa que não funcionou pode me ensinar.
Uma porta fechada pode me obrigar a procurar outro caminho.
O problema não está necessariamente em perder uma fase. O problema está em não aprender absolutamente nada com ela e continuar utilizando a mesma estratégia esperando que, de alguma maneira, o resultado seja diferente.
Escrevo mais este artigo sobre a crise de identidade atual justamente para lembrar que, ao construirmos nossa identidade, o nosso eu, e ao aprendermos a lidar com o outro, desenvolvendo nossa capacidade social, passamos também a compreender que fazemos parte de um nós. E neste nós haverá momentos de vitórias e também de perdas.
Diante das derrotas, a autorreflexão torna-se essencial para a construção de novas estratégias, capazes de superar essa cultura de modelos prontos e receitas universais, resultando na construção de uma estratégia única, marcada pela nossa própria jornada.
Mas existe algo que considero ainda mais importante nesta reflexão.
Nós, cristãos, não construímos nossa jornada acreditando que precisamos vencer todas as fases apenas com nossas próprias forças.
Como mensagem de esperança, lembro aquilo que o próprio Jesus Cristo nos ensinou:
“No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (João 16:33)
Percebam a profundidade desta mensagem. Cristo não prometeu que não teríamos aflições. Ele afirmou justamente o contrário: teremos aflições.
A diferença está naquilo que fazemos diante delas.
A própria Palavra de Deus nos apresenta o princípio de que existe “tempo de plantar, e tempo de colher” (Eclesiastes 3:2). Isso significa que nem todo resultado será imediato. Há momentos em que estamos plantando sem ainda enxergar a colheita.
E talvez esta seja uma das maiores dificuldades da nossa geração: queremos resultados imediatos em uma vida que continua sendo construída por processos.
Para além dos versos acima, gosto de lembrar que as Escrituras Sagradas nos apresentam um Pai que ama e ouve seus filhos. Em diversos momentos, a Bíblia nos ensina sobre o poder da oração e sobre a importância de buscarmos a Deus.
Desta forma, diante de fases difíceis que parecem intransponíveis, o momento de autorreflexão não precisa ser vivido sozinho. Podemos olhar para nossas decisões, aprender com nossos erros, construir novas estratégias e, ao mesmo tempo, permanecer conectados ao Deus que tudo pode.
Porque existe uma diferença fundamental entre reconhecer que precisamos melhorar nossa estratégia e acreditar que somos suficientes para controlar todos os resultados da nossa vida.
Nossa construção durante os anos é essencial para nossa constituição integral. O eu precisa ser construído. O outro precisa ser compreendido. O nós precisa ser experimentado. As frustrações precisam ser vividas. Os erros precisam produzir aprendizado. As vitórias precisam produzir gratidão.
Mas sempre haverá espaço para o impossível acontecer.
E talvez seja justamente por isso que não devemos nos entregar diante das frustrações naturais de uma vida difícil.
Nem toda fase difícil significa que o jogo terminou.
Talvez seja apenas uma fase que ainda precisamos aprender a superar.
Por isso, quando a vida apresentar uma situação que parece impossível, antes de desistir, talvez seja necessário parar, refletir, perguntar o que podemos fazer diferente e, principalmente, colocar esta situação diante daquele que continua sendo maior do que qualquer fase que possamos enfrentar.
Que Deus nos dê forças para nunca deixarmos de crer em sua providência, mesmo diante das fases que parecem impossíveis.
Porque podemos construir estratégias, aprender com as experiências e amadurecer através das frustrações, mas nossa esperança continua estando naquele que venceu o mundo.
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Glória a Deus!
